História do Clube

A "Stadium" não esquece nunca o labor desinteressado e valioso dos clubes que propagam os desportos na província. A sua acção, modesta em geral, e brilhante e valiosa muitos vezes, tem merecido palavras de elogio e provocado algumas iniciativas de estímulo para a sua actividade. Conhecer a sua existência, auscultar as suas aspirações, é concorrer para apreciá-los melhor. Vários clubes da província têm passado pelas colunas da Stadium, em referência mais ou menos ampla a uma obra que é sempre digna de realce.

Neste número, no de hoje, cabe a vez ao Clube Desportivo da Cova da Piedade. É, entre as agremiações mais novas, uma das que mais tem progredido. Em pouco mais de um ano, pôde levar atletas ao estrangeiro e colher aí uma vitória esplendida. Pois é desta colectividade que vamos falar, numa reportagem que tem muito de oportuna. E vamos dividir em très partes, que se completam — condições em que se fundou, a obra do um ano e projectos para o futuro.

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e a sua fundação

Cova da Piedade talvez seja mais conhecida como localidade de transito para o sul do pais. É o primeiro núcleo populacional que se encontra no caminho, depois da travessia difícil por Cacilhas. Considerada assim de passagem é, decerto, uma terra como outras... Para quem a visite é uma localidade em pleno desenvolvimento. A proximidade do novo Arsenal de Marinha, à volta do qual se está criando uma cidade moderna deu, à Cova da Piedade. melhores condições de vida e expansão.

Situada também perto de Almada, sede do seu concelho, e da movimentação de Cacilhas, recebeu delas influência desportiva. Formaram-se há, anos, dois clubes: Sporting Clube Piedense e União Piedense Futebol Clube. Não merece a pena indicar com rigor a antiguidade de cada um dos clubes.

Basta afirmar que a acção desportiva do lugar se dispersava por duas colectividades. E que, por serem modestas, alguns dos seus melhores atletas procuravam representar clubes da capital, com mais atractivos para quem tem aspirações de progresso e fama.

Criou-se, assim, explicou-nos um director do Desportivo da Cova da Piedade. a ideia de uma concentração de estorço., numa só agremiação, com fundas raízes na região a que pertence — um clube que representasse dignamente a sua terra e agrupasse todos os valores dispersos.

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As pessoas que mais se distinguiram, nesta campanha, c que encaminharam os dois clubes para a fusão, foram os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, advogado; dr. Raúl Cerqueira Afonso, diplomado em Ciências Económicas e Financeiras; Domingos Cabrita. Júnior, todos sócios de ambas as agremiações locais, e Salvador Marques de Assunção, diretor do Sporting Clube Piedense.

Em 28 do Janeiro de 1947, realizou-se uma reunião magna do povo da Cova da Piedade, para se pronunciar publicamente acerca do projecto de fusão dos dois clubes. A ideia foi bem aceite e a data citada figura como sendo a da fundação do Desportivo, visto que nela se resolveu organizar um novo clube, com raie título.

Na mesma reunião, que a Cova da Piedade não esquecerá facilmente, resolveu-se ainda nomear uma comissão organizadora, que ficou sendo a primeira comissão administrativa do C. D. C. P. . Dela fizeram parte os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, dr. Raúl Cerqueira Afonso, Domingos Cabrita Júnior e Salvador Marques de Assunção, já apontados, com Augusto Baptista, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa, José Ribeiro de Sousa, Carlos Matos Peres. Pedro Lopes Rodrigues, António da Costa, Diogo da Silva Nunes e José da Fonseca.

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A comissão organizadora resolveu aproveitar o edifício que estava destinado para a sede do União Piedade, a sede do Sporting para uma escola e o campo desportivo Silva Nunes, do União, perto do centro da localidade. O edifício da sede foi mobilado, não tão completamente conto era nosso desejo, mas por modo que não coloca mal o clube.

Em 1 de Abril do mesmo ano, com pouco mais de três meses de fundação, o Cube Desportivo da Cova da Piedade pôde realizar o acto que marcou melhor, sob o ponto de vista representativo, o começo oficial da sua actividade. Referimo-nos à inauguração da sede social. Ao acto presidiu o sr. dr. Salazar Carreira, inspector de desporto, em representação do sr. tenente-coronel Sacramento Monteiro, Director Geral de Desportos. E estiveram também presentes, com muito prazer para o Desportivo, o sr. Comandante Sá Linhares, ilustre presidente da Camara Municipal de Almada, vários vereadores, Benvindo Cardoso, pela Federação Portuguesa de Ciclismo, e Jaime Franco, pelo Atlético Clube de Portugal.

A festa constou da inauguração oficial da sede e de uma escola privativa do Desportivo, para educação pré-escolar, e visita ao campo de jogos.

Surgira, pois, um novo clube.

A obra de um clube novo e o seu trabalho de um ano

O Desportivo começou a funcionar com 1.023 sócios e aproveitando as instalações já apontadas — sede no edifício destinado à sede do União Piedade; escola de preparação pré-escolar, para crianças de 5 a 7 anos de idade. na antiga sede do Sporting Piedense; e campo de jogos Silva Nunes. O nome do campo constituiu uma homenagem ao antigo sócio n.° 1 do União Piedade, Silva Nunes, que ficou sendo também sócio n.° 1 do Desportivo.

O número de sócios subiu para 1.823. A escola tem 50 alunos. O campo de jogo, tem sido aproveitado para futebol e andebol. Para a prática do voleibol é utilizada a esplanada da União Artística Piedense, gentilmente oferecida pela respectiva Direcção.

Quando o Desportivo iniciou a sua acção desportiva, organizou e manteve secções para os seguintes desportos: futebol, ciclismo, andebol. voleibol, ténis de mesa e bilhar desportivo. Para poder disputar provas nestas modalidades, o Desportivo filiou-se nas respectivas Federações e Associações, filiando-se ainda na Associação de Atletismo, embora não constituísse logo secção especial para esse desporto.

O edifício da sede tem dois andares. No primeiro, estão montados um bar, um salão de jogos com bilhar desportivo e ténis de mesa, e um posto de enfermagem. No pavimento superior, encontram-se instalados o gabinete da Direcção. o gabinete das comissões, a biblioteca e sala dos trofeus.

No campo há uma boa vedação e existe uma bancada com capacidade para 300 pessoas. Tem balneário. E comporta uma assistência de 4.000 espectadores.

Um resumo de actividades

O número de praticantes desdobra-se como segue:
Futebol — 4 categorias, com 83 inscrições.
Ciclismo — 4 categorias e 14 corredores.
Andebol — 15 jogadores.
Voleibol — 14.
Ténis de mesa — 15.
Cicloturismo — 27.
Atletismo (intersócios) — 17.
Bilhar desportivo — 6.
Natação (populares) — 8.
A secção de andebol está ern reorganização.
O Desportivo disputou campeonatos em futebol ciclismo e voleibol

Os primeiros resultados

Em Futebol, a categoria de honra classificou-se em primeiro lugar no campeonato distrital, ao qual não concorreram os clubes da 1.ª e 2.ª Divisão. Em reservas e em segundas categorias ficou no segundo poeto. Em juniores, terceiro. O Desportivo passou, depois, ao campeonato nacional da 3.ª Divisão. Chegou à final, batendo o outro finalista, Académico de Viseu, no Entroncamento. No fim do tempo regulamentar, os dois clubes estavam empatados com 2-2. No prolongamento, o Cova da Piedade marcou trés pontos, sem resposta. Venceu, pois, por 5-2. A classificação obtida permitiu a entrada do Desportivo na fase final da Taça de Portugal. A prova é, porem, difícil. E o Desportivo não tem grandes aspirações.

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Em voleibol, os jogadores do Desportivo ficaram campeões da sua série mas foram eliminados pelo Naval Setubalense, campeões da série de Setúbal. Fizeram dois desafios. Na Cova da Piedade, perderam por 5-3. A cidade do Sado a derrota não passou da tangente — 2-3.

A secção de ciclismo tem sido a mais brilhante e movimentada. Em independentes, a equipa do Desportivo classificou-se em 4.° lugar na "Volta a Portugal", a seguir ao Benfica, ao Sporting e ao Porto; e Baltazar Rocha foi o décimo, individualmente, na classificação geral. Manuel Pinto Ribeiro ganhou a Rampa do Vale de Santo António. Jorge Pereira e Baltazar Rocha conquistaram a Taça "Corpos", em Orense, Jorge Pereira ficou em primeiro, na classificação individual, e Baltazar em terceiro. João Joaquim Nunes desistiu.

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Este ano, Jorge Pereira colocou-se em primeiro, nos 100 quilómetros em linha, ex aequo com João Lourenço. Adoeceu, todavia, e não completou as provas do campeonato regional. Baltazar Rocha, Pinto Ribeiro e António Vieira deram ao Desportivo o segundo lugar no Grande Prémio Alfredo Piedade. E, no campeonato nacional de amadores juniores, um corredor da Cova da Piedade ficou em segundo.

Quanto ao ciclo turismo, a equipa do Desportivo, de principiantes, composta por Vítor Antunes, Alberto Sarty e Diamantino dos Santos, ganhou o título de campeão de Lisboa, em competência com os representantes do Benfica e do Casa Pia. E um grupo formado por António Dias, Sabino David e José Mourinha, realizou um raide ao centro do país, num total de 894 quilómetros.

Outros nomes — e outros factos

A Direcção actual, a primeira que o clube elegeu, tem a seguinte composição:

Presidente, Augusto José Baptista; vice-presidente, Domingos Cabrita Júnior; tesoureiro, Emílio dos Santos Ganhão; secretário-geral, José Ribeiro de Sousa; secretário-adjunto, António da Costa; vogais. Salvador Marques da Assunção, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa e José da Fonseca.

A Direcção tem sido auxiliada por uma comissão constituída pelos srs. António Reis, João Augusto dos Reis. Carlos Filipe, César Costa Figueiredo, António Pereira da Cruz. João Palmeiro Barbosa, Carlos Reis Duarte e outros.

O Desportivo organizou apenas uma prova, no dia da inauguração da sede — o I "Circuito Piedense", em ciclismo, para Iniciados. Ganhou a Edgard Marques, do Benfica, recentemente apurado campeão nacional de amadores seniores. Em segundo, ficou José Barroso, do Desportivo.

E houve ainda uma outra festa, a marcar a posição do clube na sua região — uma festa de homenagem aos atletas da região que se destacaram e destacam no desporto nacional, pelas suas proezas e pelos seus títulos — Mário, Francisco e João da Silva Merques, três irmãos com carreiras gloriosas.

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O Clube Desportivo da Cova da Piedade e os seus projectos

Não quisemos fechar esta reportagem sem saber quais são os trabalhos que o novo clube tem em curso ou projecto.

Pouco nos disseram a tal respeito e por urna razão de certo modo simples — não existir maior preocupação que a de caminhar sem precipitações e sem grandes aspirações. Há porem um problema importante em estudo — o campo de jogos. E não é porque não disponha de um campo melhor que muitos da província. É porque não satisfaz, especialmente pelo defeito que revelou desde que começou a ser aproveitado: é amplo, está tratado com cuidado; apresenta aspecto regular; mas alaga com facilidade, quando sobre ele cai alguma chuvada forte.

Seria fácil alargá-lo, para futebol e andebol, e tem terreno que podia permitir a prática de outros desportos. Seria, no entanto, difícil e dispendioso prepará-lo para não alagar. A Direcção procura por isso resolver o problema com a aquisição de um novo campo. E, à volta da localidade, não faltam terrenos alguns deles dependentes de entidades oficiais, que bem podiam auxiliar um clube digno de simpatia, pela obre já realizada em prol do rejuvenescimento da mocidade e na valorização da região o que pertence.

Entre as pessoas e entidades a que tem recorrido, o Desportivo da Cova da Piedade destaca o sr. comandante Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada, a quem o concelho deva já reunir alguns notáveis melhoramentos. Tem sido amável para com os representantes do clube, compreende as suas necessidades e procura diligentemente atendê-las. Há, pois, confiança nos bons resultados da intervenção do sr. comandante Sá Linhares, neste assunto palpitante do novo campo. E já não é pouco.

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Além do problema em referência, o desportivo da Cova da Piedade procura apenas de momento. assegurar melhor as suas instalações, completando o mobiliário da sede, e alargar a sua acção desportiva a maior número de desportos, de modo a justificar o propósito de reunir, num só clube todos os atletas da Cova da Piedade, quando não houver necessidade de material especial. Não ha, porém, pressas — e não há demoras. Tudo a seu tempo — e na devida altura.

A Direcção está reorganizando a secção de andebol, vai alargar a prática do atletismo e pensa dedicar-se também a basquete e à patinagem. Conta, para isso, com a boa vontade dos seus sócios e com a cooperação da Indústria local e da Imprensa.

A indústria piedense tem auxiliado o C. D. C. P. com vários donativos periódicos, distinguindo-se nesta colaboração oportuna e preciosa, as seguintes firmas: Henrique Bucknal & Sons, Limitada. Rankins, Limitada e Cabruja & Cabruja.

Pelo que o que se relaciona com a Imprensa, o novo clube confessou-nos estar muito reconhecido, principalmente aos jornais desportivos, pela publicidade dispensada a todas as suas iniciativas e pelo ambiente de simpatia e estimulo com que se tem referido à acção do clube.

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Essa simpatia é, no entanto, merecida em absoluto, dizemos nós agora. É por isso mesmo que pensamos nesta reportagem à vida da nova agremiação. E é ainda por tal motivo que lhe apresentamos os nossos votos de largo progresso. (1)